terça-feira, 15 de fevereiro de 2022

Qual o melhor horário para dormir e não ter doenças? Pesquisa sugere

 Da Redação

Exame.com

Não é só de uma boa cama, um travesseiro gostoso e silêncio que precisamos para ter uma boa noite de sono. O horário também pode ter grande influência nisso

 (g-stockstudio/Thinkstock)

Sono: mesmo que o estudo tenha feito sugestões, ainda

 não existe uma resposta concreta para as perguntas. 

Quando se trata de dormir, muitas pessoas acreditam que o grande truque é escolher uma boa cama e um travesseiro aconchegante. Porém, uma pesquisa recente sugere que também pode existir um momento ideal para o sono — pelo menos no que diz respeito à saúde do coração.

Nem muito cedo, nem muito tarde: o horário ideal seria entre 22h e 23h. 

O estudo, baseado em dados de mais de 88 mil participantes do UK Biobank, sugere que dormir às 22h ou um pouco depois está associado a um risco menor de desenvolver doenças cardiovasculares, em comparação com quem vai dormir mais cedo ou após esse horário.

Contudo, o estudo não consegue provar que a hora de dormir contribui para o desenvolvimento de doenças cardiovasculares — até porque o horário que as pessoas dormem pode estar associado a outras condições de saúde ou até de comportamento. Além disso, o estudo não analisou de perto a qualidade de sono dos participantes, apenas a duração.

O co-autor do estudo e chefe de pesquisa da Huma Therapeutics, Dr. David Plans, afirmou ao The Guardian que mesmo sem a comprovação, o horário que vamos dormir afeta diretamente em pontos fisiológicos importantes, que influenciam diretamente o poder do nosso "relógio biológico" regular nosso corpo diariamente.

Caso o relógio biológico não seja devidamente ajustado por um período de tempo, o "desalinhamento circadiano" pode resultar em um aumento de inflamações, além de prejudicar a regulação da glicose no sangue, o que pode aumentar as chances de doenças cardiovasculares.

O estudo revelou que 3.172 dos 88.026 participantes, recrutados entre 2006 e 2010, desenvolveram doença cardiovascular em um tempo médio de acompanhamento de 5,7 anos. Nenhum deles apresentava doenças ou distúrbios do sono no início do estudo.

A equipe então se baseou em dados de dispositivos de pulso usados pelos participantes por sete dias para explorar se havia uma associação com o tempo em que os participantes adormeciam à noite.

A equipe descobriu que, dos 3.172 participantes, 1.371 adormeceram após a meia-noite, em média, durante os sete dias de uso do dispositivo, 1.196 cochilaram na hora a partir das 23h e 473 adormeceram na hora a partir das 22h. Apenas 132 cochilaram antes das 22h.

Depois de levar em consideração várias informações, como idade, sexo, tabagismo, duração do sono, irregularidade do sono, diabetes, pressão arterial e condição socioeconômica dos participantes, os pesquisadores encontraram participantes que adormeceram entre 22h e 22h59 tiveram um risco menor de doença cardiovascular do que aqueles que dormiram mais cedo ou mais tarde.

Mais especificamente, aqueles que adormeceram à meia-noite ou mais tarde tiveram um risco 25% maior de desenvolver doenças cardiovasculares, enquanto aqueles que adormeceram antes das 22h tiveram um risco 24% maior. Até mesmo dormir uma hora depois apresentava algum risco: aqueles que adormeceram entre 23h e 23h59 tiveram um risco 12% maior de doença cardiovascular do que aqueles que adormeceram na hora anterior.

A equipe afirma que as descobertas parecem ser mais fortes em mulheres do que em homens, embora as razões para isso permaneçam não definidas.

O estudo tem limitações, incluindo o fato de ser baseado apenas em dados de adultos de 43 a 79 anos, e os participantes do UK Biobank — um banco de dados de informações genéticas e de estilo de vida — são predominantemente brancos. Plans afirmou que mais pesquisas, com um número maior de participantes, são necessárias para examinar as descobertas, acrescentando que não havia evidências suficientes no momento para determinar uma hora de dormir como "a melhor" para o público.

No entanto, ele afirmou que o estudo reforça a importância de hábitos que ajudam com uma boa noite de sono. “As pessoas costumam presumir que as doenças cardiovasculares são uma consequência de influências fisiológicas”, disse Plans. “Considerando que, na verdade, a influência comportamental no sistema cardiovascular como resultado da interrupção circadiana é enorme.”

Qual o problema de dormir muito pouco?

Pessoas que costumam dormir menos de cinco horas por noite têm um risco maior de desenvolver diabetes, segundo o estudo.

A privação de sono a longo prazo também está associada a uma frequência cardíaca mais alta, pressão alta e níveis elevados de alguns produtos químicos ligados à inflamação e tensão no coração.

Noites curtas de sono também podem afetar sua saúde mental — levando ao estresse, preocupação e dificuldade em gerenciar as tarefas do dia a dia — e sua função cognitiva, afetando sua memória, humor e capacidade de tomar decisões.

Outros estudos também relacionaram a privação de sono ao ganho de peso e à obesidade, sugerindo que as pessoas são mais propensas a escolher alimentos gordurosos e com alto teor calórico quando não dormem o suficiente.

Qual o pior horário para dormir?

Dormir após a meia noite representa o maior risco, segundo a pesquisa. Pessoas que dormem neste horário ou mais tarde tiveram um risco 25% maior de desenvolver doenças cardiovasculares.

“O horário mais arriscado é depois da meia-noite, potencialmente porque pode reduzir a probabilidade de ver a luz da manhã, o que zera o relógio biológico”, afirmou Plans.

O corpo funciona em um ritmo circadiano, um relógio interno de 24 horas que oferece suporte às funções normais de saúde física e mental. As evidências sugerem que uma interrupção prolongada desse ritmo está associada à pressão arterial elevada, redução da qualidade do sono e aumento do risco de doenças cardiovasculares.


Por que os adolescentes precisam dormir tanto?

 Lisa L. Lewis

O Estado de São Paulo

 

Já sabemos que esta pandemia tem sido horrível para os adolescentes e sua saúde mental. No mês passado, o conselho de saúde mental do órgão de saúde pública dos Estados Unidos (OSG, na sigla em inglês) ressaltou a magnitude do problema, uma vez que sentimentos de desesperança e até suicídio aumentaram nos últimos anos entre essa faixa etária – e a pandemia só agravou os níveis de estresse dos adolescentes. Mas há outro fator muito importante para a saúde mental dos adolescentes, ainda mais agora: o sono e o papel que ele desempenha na melhoria da saúde mental e da resiliência emocional.

Enquanto crianças e adolescentes tentam se reajustar ao mundo pandêmico, dormir bem pode ser um fator de proteção, diz Lisa Meltzer, psicóloga pediátrica da National Jewish Health em Denver.

“Quando você não dorme bem, a regulação emocional é uma das primeiras coisas a ir embora”, diz ela. “Sono insuficiente, de má qualidade ou na hora errada – cada um desses fatores pode exacerbar as condições de saúde mental.”

Estudantes não dormem o suficiente

De acordo com muitas fontes, entre elas a Fundação Nacional do Sono e a Academia Americana de Medicina do Sono, os adolescentes devem dormir de oito a dez horas por noite. Mas menos de um quarto dos alunos do ensino médio estão atingindo o mínimo, de acordo com os resultados da mais recente pesquisa nacional de comportamento de risco da juventude, realizada a cada dois anos pelos Centros de Controle e Prevenção de Doenças.

Do ponto de vista da saúde mental, tentar dormir mais do que o mínimo de oito horas pode ser bastante útil, descobriram os especialistas. Em um estudo, adolescentes que dormiam oito a nove horas por noite tiveram os níveis mais baixos de problemas de saúde mental, como mau humor, sentimentos de inutilidade, ansiedade e depressão.

Em um estudo publicado recentemente que avalia o sono e o humor de estudantes universitários, Tim Bono, professor de ciências psicológicas e cerebrais da Universidade de Washington em St. Louis, descobriu que os alunos que dormiam mais durante a semana também registraram as maiores melhorias na felicidade e no bem-estar ao longo do semestre. Isso valeu até mesmo para os alunos que tinham níveis de felicidade mais baixos no início do estudo.

Estudantes com horários de sono mais erráticos tiveram quase duas vezes mais chances de ficar infelizes, segundo o estudo. As principais práticas recomendadas para o sono, incluindo consistência, parecem “afetar significativamente a trajetória da saúde psicológica dos alunos”, diz Bono.

Quando os adolescentes não dormem o suficiente durante a semana, costumam dormir até tarde nos fins de semana para compensar o déficit, o que perpetua o ciclo.

Dormir o suficiente pode proporcionar um amortecedor emocional para ajudar os adolescentes a lidar com os fatores de estresse diários, mostra a pesquisa.

Tiffany Yip, presidente do departamento de Psicologia da Fordham University, pesquisou como o sono afeta a capacidade de os adolescentes lidarem com o estresse relacionado à discriminação. Um estudo de que ela é coautora descobriu que ter uma boa noite de sono ajudava os adolescentes a lidar com a discriminação e o estresse relacionado à discriminação no dia seguinte.

Mais especificamente, os adolescentes que dormiam bem na noite anterior eram mais capazes de selecionar estratégias eficazes de enfrentamento, como buscar apoio e não ficar ruminando ou obcecado com o que acontecera, diz ela. “Quando os adolescentes dormem bem”, diz ela, “eles são mais capazes de lidar com o estresse que vem no dia seguinte”.

E o sono que os adolescentes têm depois de um dia estressante? Ele fornece uma chance de redefinir as emoções, ajudando-os a se recuperar para que haja menos problemas na manhã seguinte. Pesquisadores documentaram esse “efeito rebote”, descobrindo que, quando os adolescentes dormiam mais, eles tinham um humor geral mais positivo na manhã seguinte, muito parecido com o humor após um dia de baixo estresse.

Também existe uma associação entre a quantidade de horas que os adolescentes dormem e seu humor e comportamentos de automutilação. Uma análise dos resultados da pesquisa Comportamentos de Risco da Juventude revelou que os alunos do ensino médio que disseram dormir menos nas noites dos dias de semana eram proporcionalmente mais propensos a relatar tristeza ou desesperança.

Quando comparados com os adolescentes que dormiam por pelo menos oito horas, aqueles que dormiam por seis horas ou menos tiveram mais de três vezes mais chances de pensar, fazer planos ou de fato tentar suicídio, de acordo com a análise.

Ansiedade e depressão afetam o sono

Meltzer caracteriza a relação entre sono e saúde mental como algo “intrincadamente entrelaçado”: a perda de sono pode ter um efeito negativo no humor e na resiliência emocional, e problemas de saúde mental podem afetar o sono.

“Sabemos que, no caso de diferentes diagnósticos de saúde mental – ansiedade e depressão –, o sono pode ser tanto um sintoma quanto um resultado negativo do transtorno”, diz ela. “Se conseguirmos melhorar o sono, alguns dos sintomas de saúde mental vão melhorar. Mas tratar apenas o problema do sono não vai necessariamente curar a depressão ou a ansiedade.”

Em vez disso, ela recomenda que ambos os lados da equação – os problemas de sono e os problemas de saúde mental – sejam abordados simultaneamente. Ela observa que, quando os adolescentes dormem demais com alguma regularidade (mais de dez horas todas as noites), isto pode ser um sinal de que estão deprimidos.

Meltzer enfatiza a importância da consistência do sono para os adolescentes, além dos bons hábitos de sono e de melhores práticas ao acordar. “É fundamental se expor à luz e sair da cama de manhã”, diz. “Para a regulação do ritmo circadiano, é importante ter escuridão à noite e luz pela manhã.”

Ela recomenda que os adolescentes não se demorem na cama, principalmente se estiverem gastando tempo ruminando pensamentos ou usando dispositivos eletrônicos:“Quando falamos de sono e saúde mental, estes são os três pontos principais: primeiro, uma programação consistente; segundo, luz pela manhã; e terceiro, só ficar na cama quando estiver dormindo.”

TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU



Uso de melatonina para dormir está aumentando, mas oferece riscos

 Sandee LaMotte

 CNN Brasil*

Conhecido como hormônio do sono, o composto tem sido associado a dor de cabeça, tontura, náusea, cólicas estomacais e uma série de disfunções

 Foto: Wavebreakmedia_micro/Freepik

Mais e mais adultos estão tomando melatonina — popularmente conhecido como hormônio do sono —sem receita para dormir, e alguns deles podem estar usando em níveis perigosamente altos, descobriu um novo estudo.

Embora o uso geral entre a população adulta dos Estados Unidos ainda seja “relativamente baixo”, a pesquisa “documenta um aumento significativo de no uso de melatonina nos últimos anos”, disse a especialista em sono Rebecca Robbins, instrutora na divisão de sono da Escola de Medicina de Harvard, que não esteve envolvida no estudo.

A pesquisa, publicada nesta terça-feira (01) na revista médica JAMA, descobriu que em 2018 os americanos estavam consumindo mais que o dobro da quantidade de melatonina que utilizavam uma década antes.

Especialistas temem que o impacto negativo no sono, causado pela pandemia, possa ter aumentado ainda mais a dependência generalizada de auxílios para dormir, disse Robbins.

“Tomar soníferos tem sido associado em estudos prospectivos com o desenvolvimento de demência e mortalidade precoce”, disse ela.

A melatonina tem sido associada a dor de cabeça, tontura, náusea, cólicas estomacais, sonolência, confusão ou desorientação, irritabilidade e ansiedade leve, depressão e tremores, bem como pressão arterial anormalmente baixa. Também pode interagir com medicamentos comuns e desencadear alergias.

Embora o uso de curto prazo para jet lag (distúrbio do sono), trabalhadores por turnos e pessoas com problemas para adormecer pareça seguro, a segurança a longo prazo é desconhecida, de acordo com o Centro Nacional de Saúde Complementar e Integrativa (NCCIH) dos Institutos Nacionais de Saúde dos EUA.

Dose maior, pouca regulação

Desde 2006, um pequeno, mas crescente subconjunto de adultos está tomando quantidades de melatonina que excedem em muito a dosagem de 5 miligramas por dia que normalmente é usada como tratamento de curto prazo, segundo o estudo.

No entanto, as pílulas à venda podem conter níveis de melatonina muito mais altos do que o anunciado no rótulo. Ao contrário de medicamentos e alimentos, a melatonina não é totalmente regulamentada pela agência reguladora Food and Drug Administration (FDA) dos EUA, portanto, não há requisitos federais para que as empresas testem pílulas para ter certeza de que contêm a quantidade de melatonina anunciada.

“Pesquisas anteriores descobriram que o conteúdo de melatonina nesses suplementos não regulamentados e comercialmente disponíveis variou de -83% a +478% do conteúdo rotulado”, disse Robbins, coautora do livro “Durma para o Sucesso” (em tradução livre).

Também não há requisitos para que as empresas testem seus produtos quanto a aditivos ocultos prejudiciais em suplementos de melatonina vendidos em lojas e online. Estudos anteriores também descobriram que 26% dos suplementos de melatonina continham serotonina, “um hormônio que pode ter efeitos nocivos mesmo em níveis relativamente baixos”, de acordo com o NCCIH, departamento dos Institutos Nacionais de Saúde.

“Não podemos ter certeza da pureza da melatonina que está disponível no mercado”, disse Robbins.

Tomar muita serotonina combinando medicamentos como antidepressivos, remédios para enxaqueca e melatonina pode levar a uma reação medicamentosa grave. Sintomas leves incluem calafrios e diarréia, enquanto uma reação mais grave pode levar à rigidez muscular, febre, convulsões e até morte se não for tratada.

É um hormônio, não uma erva

Por ser comprado sem receita, os especialistas dizem que muitas pessoas veem a melatonina como um suplemento de ervas ou vitamina. Na realidade, a melatonina é um hormônio produzido pela glândula pineal, localizada nas profundezas do cérebro, e liberada na corrente sanguínea para regular os ciclos de sono do corpo.

“Há uma visão de que, se for natural, não pode doer”, disse Robbins à CNN em uma entrevista anterior sobre o impacto da melatonina nas crianças. “A verdade é que realmente não sabemos as implicações da melatonina a longo prazo, para adultos ou crianças”.

Outra realidade: estudos descobriram que o uso de melatonina pode ser útil na indução do sono se usado corretamente – tomando pelo menos duas horas antes de dormir – mas o benefício real é pequeno.

“Quando os adultos tomaram melatonina, diminui a quantidade de tempo que levaram para adormecer em quatro a oito minutos”, disse à CNN Cora Collette Breuner, professora do departamento de pediatria do Hospital Infantil de Seattle da Universidade de Washington.

“Então, para alguém que leva horas para adormecer, provavelmente a melhor coisa a fazer é desligar as telas, fazer 20 a 40 minutos de exercício por dia ou não beber nenhum produto com cafeína”, disse Breuner.

“Estas são todas as ferramentas de higiene do sono que funcionam, mas as pessoas hesitam muito em fazê-las. Preferem apenas tomar uma pílula, certo?”

Treinando seu cérebro para dormir

Existem outras dicas de sono comprovadas que funcionam tão bem, se não melhor, do que soníferos, dizem os especialistas. O corpo começa a secretar melatonina no escuro. O que fazemos em nossa cultura moderna? Usamos luz artificial para nos manter acordados, muitas vezes muito além da hora normal de dormir do corpo.

Pesquisas descobriram que o corpo diminui ou interrompe a produção de melatonina se exposto à luz, incluindo a luz azul de nossos smartphones, laptops e similares.

“Qualquer fonte de luz de espectro de LED pode diminuir ainda mais os níveis de melatonina”, disse Vsevolod Polotsky, que dirige a pesquisa básica do sono na divisão de medicina pulmonar e de cuidados intensivos da Faculdade de Medicina da Universidade Johns Hopkins, em uma entrevista anterior à CNN.

Portanto, fique sem esses dispositivos pelo menos uma hora antes de adormecer. Gosta de ler para dormir? Tudo bem, dizem os especialistas, basta ler um livro real com pouca luz ou usar um e-reader no modo noturno.

“A luz digital diminuirá o impulso circadiano”, disse Polotsky, enquanto uma “luz de leitura fraca não o fará”.

Outras dicas incluem manter a temperatura do seu quarto em temperaturas mais baixas de cerca de 15ºC a 20ºC. Dormimos melhor se estivermos com um pouco de frio, dizem os especialistas.

Estabeleça um ritual na hora de dormir tomando um banho quente ou chuveiro, lendo um livro ou ouvindo música suave.

Ou você pode tentar respiração profunda, ioga, meditação ou alongamentos leves. Vá para a cama e levante-se no mesmo horário todos os dias, mesmo nos fins de semana ou nos dias de folga, explicam. O corpo gosta de rotina.

Se o seu médico prescrever melatonina para ajudar com o jet lag ou outros problemas menores de sono, mantenha o uso “a curto prazo”, disse Robbins.

Se você planeja usar melatonina para um sonífero de curto prazo, tente comprar melatonina de grau farmacêutico, ela aconselhou. Para descobrir isso, procure um selo mostrando que o produto foi testado.

* Este conteúdo foi criado originalmente em inglês.


Sindicato pede interdição de salas de hospital com risco de superfungo

 Redação

Catraca Livre 

O Sindicato dos Auxiliares e Técnicos de Enfermagem de Pernambuco (Satenpe) pediu a interdição urgente de duas salas da Unidade de Trauma da emergência do Hospital da Restauração (HR), no Recife por causa do risco de contaminação por superfungo e superbactéria.

 © Satenpe/Divulgação

De acordo com o G1, o pedido foi enviado ao governo, 

Ministério Público (MPPE) do Trabalho (MPT).

Recentemente, foi confirmado um caso de paciente que carregava o microoganismo na unidade hospitalar. Outro caso de uma idosa que acabou morrendo por outras causas é ainda investigado.

A preocupação dos funcionários se justifica já que o Candida auris é resistente a  muitos medicamentos e desinfetantes e pode viver por longos períodos nas superfícies, por isso o nome de superfungo.

O sindicato argumenta que o teto de uma das salas da unidade que recebe pacientes para aplicação de medicamentos na veia e fazer curativos está tomado por colônia de fungos e outros microrganismos que podem ser nocivos à saúde.

A entidade pede que seja feita a higienização dos ambientes, bem como dos dos dutos de ar-condicionado e dos equipamentos utilizados pelos funcionários.

Também há a solicitação para que os trabalhadores expostos aos riscos sejam testados para evitar possíveis novos casos.

Surto de superfungo

De acordo com a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), apesar de no momento haver só um caso confirmado e outro em análise no Brasil, pode-se considerar que há o terceiro surto do Candida auris no país.

Houve um primeiro surto na Bahia em 2020, com 15 casos e duas mortes, e um segundo surto, também na Bahia, em dezembro do ano passado.

A Anvisa explica que a definição de surto não se restringe apenas a uma grande quantidade de casos, mas também ao surgimento de um novo microrganismo contagioso – mesmo se for apenas um caso.

Superfungo é ameaça global

O superfungo é resistente a medicamentos e a infecção causada por ele pode levar à morte. Ele foi catalogado pela primeira vez ao ser encontrado no canal auditivo de um paciente na Coreia do Sul, em 2009. Desde então, houve casos identificados em mais de 30 países como Estados Unidos, Índia, Inglaterra, África do Sul, Venezuela, Colômbia, Israel, Paquistão, Quênia, Kuwait, Reino Unido e Espanha, além do Brasil.

A ameaça à saúde global é tão séria que cientistas do Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), dos Estados Unidos, consideram que o superfungo pode ser o causador de uma possível próxima pandemia.

Veja também: Candida auris: superfungo pode levar a uma próxima pandemia



Por que o açúcar nas frutas não prejudica a saúde como o processado

 Juan Carlos Laguna Egea e Marta Alegret Jorda*

The Conversation

BBC Brasil 

CRÉDITO,GETTY IMAGES

Frutas são ricas em frutose

As frutas são um tipo de alimento presente em todas as dietas saudáveis. Elas são caracterizadas, entre outras coisas, pela sua doçura, especialmente quando amadurecem corretamente.

Esse sabor doce das frutas é porque elas contém uma grande quantidade de um tipo de açúcar chamado frutose. Elas também contém glicose, mas em quantidade muito menor.

A frutose é, junto com a glicose, um componente do açúcar branco refinado (ou de mesa) e do xarope de milho. Ambos os produtos são usados como ingredientes comuns na preparação de alimentos processados, molhos e condimentos, doces e refrigerantes.

E é aí que começa o problema. Inúmeros estudos associam o aumento do consumo desses produtos à maior incidência de doenças metabólicas, como obesidade, diabetes, esteatose hepática e lipídios no sangue.

Quantidade

Um maior consumo de produtos alimentícios que contenham açúcar implica em um maior consumo de calorias. Se não for queimada, esse energia se acumula na forma de gordura no corpo e promove o desenvolvimento de doenças metabólicas.

Infelizmente, o consumo de dietas hipercalóricas, pobres em frutas e vegetais e ricas em gorduras e esse tipo de açúcar, tornou-se global, facilitando o crescimento epidêmico desse tipo de patologia.

Por outro lado, se você for ao nutricionista ou consultar algum guia alimentar, encontrará sempre o mesmo conselho: se você quer ser saudável, coma porções de frutas, verduras e legumes divididas nas diferentes refeições do dia.

O consumo diário moderado de alimentos naturais não processados, como frutas, é saudável. E vamos usar o bom senso, não estamos falando em consumir dois quilos de pera e um melão por dia!

Qualidade

A frutose se transforma em gordura com muita facilidade no fígado. Pela mesma quantidade ingerida, por exemplo, de frutose e glicose, a primeira produz uma quantidade maior de gordura no fígado.

Nesse sentido, a frutose, em excesso, tem maior potencial para alterar o metabolismo e facilitar o aparecimento de doenças metabólicas do que outros açúcares. Mas então, essas patologias também ocorrem com o consumo de frutose de frutas?

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É melhor para a saúde consumir frutas inteiras do que tomar sucos de frutas

A embalagem é tudo

Todos nós sabemos que, afinal, somos primatas evoluídos. Por milhões de anos, nossos ancestrais viveram e se adaptaram ao consumo de uma dieta variada, rica em vegetais e frutas que coletavam ao longo do dia.

Quando ingerimos a frutose, não a ingerimos como tal, isolada, mas sim incorporada em sua embalagem natural (a própria fruta), com todos os demais componentes dela: fibras, minerais, vitaminas, etc.

É por isso que devemos mastigar adequadamente cada pedaço que pegamos. O objetivo é misturar seus vários componentes, incluindo fibras abundantes, com nossa saliva e sucos digestivos. Isso faz com que a frutose contida na fruta entre lentamente em nosso corpo.

Assim, as células intestinais consomem grande parte da frutose que absorvem, de modo que muito pouco dela chega ao fígado pelo sangue para se transformar em gordura.

Já quando consumimos uma grande quantidade de frutose presente em um doce, em um molho, em um sorvete e especialmente na forma líquida, como em uma bebida açucarada, a situação é muito diferente.

Inundamos nosso trato digestivo com frutose, dissolvida em água, que é rapidamente absorvida pelas células intestinais, mas a ponto de transbordá-las. Em seguida, essa frutose chega ao fígado, onde se transforma em gordura.

O fígado é responsável por distribuir esse excesso de gordura por todo o corpo. Se esse consumo de frutose processada acontecer de vez em quando, não tem problema. Mas se consumirmos esses alimentos em abundância e com frequência, no longo prazo teremos problemas de saúde. O excesso de gordura depositado em nosso corpo pode causar obesidade, diabetes, colesterol alto, etc.

Com o tempo, os distúrbios metabólicos aumentam o risco de um ataque cardíaco ou até mesmo de um processo cancerígeno. Por exemplo, recentemente foi publicado um estudo que verificou que uma maior incidência de câncer está associada a um maior consumo de açúcares na forma líquida.

Quando se estuda especificamente a associação entre o aparecimento de câncer e o consumo de sucos de frutas, esta também é positiva, ou seja, a incidência de câncer aumenta com o maior consumo de sucos de frutas.

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O consumo de frutas de legumes é importante para uma dieta saudável

O açúcar da fruta é bom ou ruim?

Então, o açúcar da fruta é bom ou ruim? Se você leu acima, pode adivinhar a resposta. O consumo de frutas em nossa dieta é saudável. Isso implica que devemos mordê-las, mastigá-las, misturarmos as frutas com o resto da comida para facilitar sua digestão.

Dessa forma, os componentes da fruta, incluindo a frutose, são incorporados lentamente pelo nosso corpo.

Quando bebemos um suco de fruta, mesmo que seja natural, as coisas mudam. Comemos muito mais frutas do que se tivéssemos que descascar, morder e mastigar. Além disso, como não levamos a frutose em sua embalagem natural, ela é absorvida de repente e rapidamente, chega ao fígado. Portanto, as frutas são consumidas como tal e os sucos - mesmo os naturais - são um prazer que podemos saborear de vez em quando.

E se decidir tomar um suco, por favor, não retire a polpa! A polpa ajuda o açúcar da fruta a se incorporar lentamente ao nosso corpo, de forma mais semelhante ao que acontece quando comemos a fruta diretamente.

*Juan Carlos Laguna Egea é professor de farmacologia na Universidade de Barcelona. Marta Alegret Jorda é pesquisadora do departamento de farmacologia e química da Universidade de Barcelona.

Este artigo de opinião foi publicado originalmente no site de notícias acadêmicas The Conversation e republicado sob licença Creative Commons. 


Os benefícios que dois pedaços de chocolate por dia podem trazer ao coração e ao cérebro

 Michael Mosley*

Da série "Just One Thing", da BBC

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A ideia de que chocolate pode fazer bem à saúde parece boa demais para ser verdade.

Mas um conjunto cada vez maior de evidências científicas sugere que consumir uma pequena quantidade de chocolate amargo todos os dias pode não só satisfazer aquela vontade por um docinho no meio da tarde, como melhorar a saúde cardiovascular, reduzir a pressão arterial, os níveis de colesterol ruim (LDL) e até mesmo estimular o cérebro.

A seguir, algumas maravilhas que o cacau pode oferecer.

O ingrediente secreto

Parte do entusiasmo em relação ao chocolate amargo vem de uma descoberta relativa ao povo Guna, que vive na costa do Panamá. Estudos populacionais mostraram que eles viviam uma vida longa e, diferentemente da maioria de nós, não apresentavam aumento da pressão arterial com a idade.

Uma teoria é que eles tomavam bastante suco de cacau sem açúcar — até cinco xícaras por dia.

E os pesquisadores acreditam que os flavonoides, compostos presentes em quantidade significativa no cacau, podem estar por trás desse e de outros benefícios surpreendentes do chocolate amargo.

"O elemento-chave no chocolate parece ser os flavonóis (uma classe de flavonoides), presentes sobretudo no cacau", explica Aedin Cassidy, diretora de pesquisa interdisciplinar na Queen's University Belfast, na Irlanda do Norte, especialista em chocolate.

Os flavonoides podem ser encontrados em uma série de alimentos de origem vegetal, como morango, chá, mirtilo (blueberries), maçã e cebola.

Mas as sementes amargas do cacau são uma das fontes mais ricas de flavonoides. E, felizmente, você não precisa comer estas sementes amargas para obter os benefícios. Apenas chocolate com alto teor de cacau.

"Em comparação com uma barra de chocolate de 50g, você obtém a mesma quantidade de flavonóis em três maçãs, em uma colher de sopa de cacau em pó, três taças pequenas de vinho tinto ou uma xícara grande de chá", diz Cassidy.

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As sementes do cacau contêm um alto teor de flavonoides

O chocolate branco não contém partículas de cacau, então comer este tipo de chocolate não adianta. O chocolate ao leite contém algumas, mas não o suficiente.

A maior quantidade é encontrada no chocolate amargo não processado — e o que não faltam são motivos para você optar por ele.

Quais são os benefícios?

Ao longo dos anos, várias pesquisas foram feitas sobre os benefícios do chocolate amargo para a saúde. Muitos estudos analisaram como a quantidade de chocolate que você ingere influencia o risco de doenças crônicas, incluindo doenças cardíacas, derrame, câncer e diabetes.

"Há evidências crescentes dos benefícios, particularmente para a saúde do coração, mas também benefícios cognitivos para a saúde do ;cérebro", afirma Cassidy.

"Foram realizados mais de 42 estudos específicos com flavonóis de cacau, em que foram demonstrados benefícios consistentes em termos de redução da pressão arterial, melhora no fluxo sanguíneo e melhora nos níveis de insulina e de colesterol."

Uma pesquisa conduzida pela própria Cassidy com mulheres com diabetes tipo 2, ao longo de um ano, mostrou que comer chocolate amargo com alto teor de flavonoides todos os dias pode melhorar a elasticidade das artérias, a sensibilidade à insulina e os níveis de colesterol, sobretudo LDL.

E agora, pesquisas recentes estão revelando que os benefícios do chocolate vão além de ajudar a reduzir o risco de doenças cardiovasculares e de controlar os níveis de glicose no sangue, se refletindo também nos nossos cérebros.

Como é metabolizado

Mas como os flavonoides atuam dentro do nosso organismo?

De acordo com Cassidy, os micróbios que vivem em nosso intestino, a chamada microbiota ou microbioma, desempenham um papel fundamental no metabolismo de flavonoides para aumentar seus efeitos cardioprotetores.

Quando ingerimos flavonoides, os pesquisadores acreditam que nossas bactérias intestinais os convertem em compostos anti-inflamatórios menores que podem ser absorvidos pela corrente sanguínea.

E, segundo a especialista, foi demonstrado que estes metabólitos são capazes de cruzar a barreira hematoencefálica, onde têm o potencial de ter efeitos neuroprotetores e impactos na neuroplasticidade.

"Eles estão entrando no tecido cerebral, e isso parece ter efeito sobre o fluxo sanguíneo no cérebro em particular", acrescenta.

O cacau pode te deixar mais inteligente?

É por isso que comer alguns quadradinhos de chocolate amargo pode ter efeitos na habilidade cognitiva.

"Há algumas evidências dos efeitos sobre o aprendizado e a memória, da qual, é claro, vamos precisar a partir dos 50, 60 anos e adiante. E já existem alguns estudos, todos de curto prazo, mostrando melhorias na memória, na velocidade de recordação e na aprendizagem", diz a especialista.

Um estudo de imagens cerebrais realizado em adultos jovens, por exemplo, analisou os efeitos do consumo de duas bebidas diferentes no cérebro: uma com altos níveis de flavonoides, e outra com baixo teor.

Não só os participantes que tomaram a bebida com alto teor de flavonoides foram capazes de completar certos testes cognitivos com mais eficiência, como seu cérebro apresentou melhor oxigenação e fluxo sanguíneo.

Qual a quantidade ideal?

Pesquisas têm mostrado que apenas dois quadradinhos de chocolate amargo são tudo que você precisa para ver os efeitos positivos. E é importante se ater a isso.

Em grandes quantidades, o chocolate pode aumentar o nível de açúcar no sangue e levar ao ganho de peso, o que pode aumentar — em vez de reduzir — o risco de doenças cardiovasculares, anulando assim os efeitos positivos.

"Os dados epidemiológicos de grandes estudos de base populacional estão sugerindo de três a cinco vezes por semana, alguns quadradinhos por dia", diz Cassidy.

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Quanto mais não processado, maior a presença de flavonoides no chocolate

O melhor dos mundos é trocar aquele lanchinho açucarado pelo chocolate amargo, de modo que você obtenha tanto os benefícios de reduzir a gordura e o açúcar, quanto os benefícios dos compostos de flavonoides - matando dois coelhos de uma cajadada só.

Quanto mais amargo, melhor

"Como regra de ouro, quanto mais amargo o chocolate, melhor o chocolate, mais altos são os níveis de flavonóis."

Além disso, quanto mais elevado o teor de cacau, menor costuma ser o teor de açúcar e gordura do chocolate amargo, potencializando assim os benefícios e a redução dos efeitos prejudiciais do seu consumo.

Mas é preciso ficar atento. Algumas empresas usam uma técnica chamada processamento holandês, de alcalinização, para tirar o sabor ligeiramente amargo do cacau e, junto com ele, os flavonoides e seus amplos benefícios.

Afinal, são os flavonoides que conferem o sabor amargo ao chocolate.

"Quanto mais não processado, maior a presença de flavonoides do cacau", explica Cassidy.

Portanto, se você realmente quer tirar o máximo proveito do seu chocolate, procure o tipo não processado e se deleite com o sabor amargo.

Se você não gosta ou não está acostumado, pode começar com um chocolate com 40% de teor de cacau para obter um sabor mais equilibrado, antes de aumentar a porcentagem.

"Os que possuem um teor de 40-50% (de cacau) provavelmente serão os mais saborosos", diz a especialista.

"Uma outra coisa boa sobre o chocolate amargo é que, por ser um pouco amargo, você não quer sentar e comer uma barra inteira. Alguns quadradinhos costumam ser o suficiente para satisfazer a necessidade de chocolate."

*Na série Just One Thing (Uma Única Coisa), da Rádio 4 da BBC, o médico Michael Mosley aborda em diferentes episódios o que você poderia fazer por sua saúde se tivesse apenas uma escolha.



Chá e café podem diminuir risco de AVC e demência, diz estudo

  Bibiana Guaraldi

Exame.com

Pesquisa analisou 365.000 pessoas com idades entre 50 e 74 anos e revela que o consumo moderado de chá e café pode ter benefícios para a saúde

  (Catherine Falls Commercial/Getty Images)


Estudo mostrou que beber café ou chá pode estar relacionado a um risco menor de AVC e demência, informa o jornal inglês The Guardian.

Os acidentes vasculares cerebrais causam 10% das mortes em todo o mundo, enquanto a demência é um dos maiores desafios de saúde do mundo - 130 milhões devem viver com ela até 2050.

Na pesquisa, 365.000 pessoas com idades entre 50 e 74 anos participantes do programa UK Biobank foram acompanhadas por mais de uma década. No início, eles relataram a quantidade de café e chá que beberam. Durante o período da pesquisa, 5.079 deles desenvolveram demência e 10.053 tiveram pelo menos um derrame.

Os pesquisadores descobriram que as pessoas que bebiam de duas a três xícaras de café ou de três a cinco xícaras de chá por dia, ou uma combinação de quatro a seis xícaras de café e chá, tinham o menor risco de derrame ou demência.

Aqueles que beberam duas a três xícaras de café e duas a três xícaras de chá por dia tiveram um risco 32% menor de derrame. Essas pessoas tinham um risco 28% menor de demência em comparação com aquelas que não bebiam chá ou café.

A pesquisa, feita por Yuan Zhang e colegas da Tianjin Medical University, na China, sugere que beber café sozinho ou em combinação com chá também está relacionado a menor risco de demência pós-derrame.

Em artigo publicado na revista científica na revista Plos Medicine, os autores afirmam: "Nossas descobertas sugeriram que o consumo moderado de café e chá separadamente ou em combinação estava associado a um menor risco de acidente vascular cerebral e demência."

No entanto, os cientistas alertaram que o UK Biobank reflete uma amostra relativamente saudável em relação à população em geral, o que poderia restringir a capacidade de generalizar essas associações. Embora seja possível que o café e o chá possam proteger contra derrame, demência e demência pós-derrame, os pesquisadores dizem que a causalidade não pode ser concluída a partir das associações.

A professora Tara Spiers-Jones, líder do programa do UK Dementia Research Institute, que não estava envolvida na pesquisa, descreveu-a como "interessante" e "conduzida de maneira robusta", mas enfatizou que mais trabalho precisa ser feito para entender completamente as ligações biológicas potenciais entre chá e café e o risco de derrame e demência.

O professor Kevin McConway, professor emérito de estatística aplicada na Open University, também não envolvido no estudo, disse que o estudo mostrou que as associações entre o risco de acidente vascular cerebral e de demência não aumentam ou diminuem uniformemente com o consumo de chá e café.

O que geralmente acontecia é que o risco de derrame ou demência era menor em pessoas que bebiam quantidades razoavelmente pequenas de café ou chá em comparação com aquelas que não bebiam nada, mas que após um certo nível de consumo, o risco começou a aumentar novamente até que se tornasse maior do que o risco para as pessoas que não bebiam nada.

“Uma vez que o consumo de café chegava a sete ou oito xícaras por dia, o risco de derrame era maior do que para pessoas que não bebiam café e muito maior do que para aquelas que bebiam duas ou três xícaras por dia.”

A Dra. Rosa Sancho, chefe de pesquisa da Alzheimer’s Research UK, disse: “Para a maioria de nós, nosso risco de demência depende da interação complexa entre nossa idade, genética e estilo de vida. Compreender quais aspectos do nosso estilo de vida têm o maior efeito sobre a saúde do nosso cérebro é a chave para capacitar as pessoas a tomar decisões informadas sobre suas vidas”.


A resistência aos antibióticos, um perigo mundial

 Agência  AFP

O fenômeno das bactérias cada vez mais resistentes aos medicamentos - acelerado pelo consumo excessivo de antibióticos - preocupa as autoridades de saúde mundiais há muitos anos, pois tem consequências letais, embora sejam difíceis de calcular com precisão.

 © JULIEN DE ROSA 

O fenômeno das bactérias cada vez mais resistentes aos medicamentos - 

acelerado pelo consumo excessivo de antibióticos - 

preocupa as autoridades de saúde mundiais

- O que é? -

"Matam os micróbios, é verdade, mas nem todos morrem", escreveu em 1902 o escritor francês Alphonse Allais. "Os que resistem ficam mais fortes que antes". Era uma piada, mas, várias décadas antes do desenvolvimento dos antibióticos, a frase era visionária.

Allais resumiu bem o mecanismo pelo qual são registradas bactérias cada vez mais resistentes a estes medicamentos.

Os antibióticos, descobertos nos anos 1930-1940 e utilizados em larga escala após Segunda Guerra Mundial, são moléculas que destroem as bactérias que provocam doenças ou, pelo menos, impedem seu desenvolvimento.

Mas com o tempo, bactérias resistentes aparecem devido a mutações genéticas. Ao eliminar as bactérias vulneráveis, os antibióticos têm um efeito perverso, pois permitem que as resistentes invadam o espaço. 

Além disso, há outro fenômeno: as bactérias 'teimosas' podem transmitir suas características às vizinhas ainda sensíveis aos antibióticos. 

"A maior parte das resistências observadas, principalmente aquelas que se propagam de maneira rápida e problemática, acontece por esta capacidade de serem transferidas, destaca à AFP o microbiologista francês Christian Lesterlin. 

Como consequência dos diferentes mecanismos, os antibióticos, que hoje constituem grande parte dos medicamentos em circulação, vão perdendo gradativamente sua eficácia.

- Como começou? -

A resistência aos antibióticos é um fenômeno natural. Mas está aumentando com o consumo excessivo ou inadequado dos tratamentos, como por exemplo contra a gripe, que tem origem viral e não bacteriana. 

Os países desenvolvidos perceberam o problema há 20 anos e iniciaram campanhas de conscientização, como na França, que tem o slogan "Os antibióticos não são a solução para tudo". 

O consumo de antibióticos finalmente se estabilizou na década de 2010 em muitos países ricos. Mas as preocupações se voltaram para os países em desenvolvimento, onde o uso aumenta fortemente.

"Estas tendências refletem tanto um melhor acesso aos antibióticos para aqueles que precisam como um aumento do uso inapropriado", resume a CDDEP, organização americana de pesquisa em saúde pública.

A utilização abusiva de antibióticos nos animais também está em jogo, pois alguns agricultores utilizam o medicamento por sua capacidade de acelerar o crescimento do gado.

A União Europeia proibiu, entre outras coisas, este uso desde 2006.

- Qual o nível de gravidade? -

"A resistência aos antibióticos constitui atualmente uma das ameaças mais graves para a saúde mundial", resumiu em 2020 a Organização Mundial da Saúde (OMS).

Com medicamentos menos eficazes, aumenta o risco de não conseguir curar uma ampla gama de doenças bacterianas que podem ser fatais, como a tuberculose ou a pneumonia. 

Neste sentido, a resistência aos antibióticos mata. As autoridades de saúde europeias calculam que 25.000 pessoas morrem a cada ano na União Europeia vítima das consequências.

Nos Estados Unidos, o número alcança 35.000 mortes por ano. 

Mas continua muito difícil obter uma estimativa mundial do fenômeno, e é justamente nos países em desenvolvimento que o problema pode aumentar nos próximos anos.

O tema também é propício para algumas estimativas alarmistas. Uma delas, frequentemente retomada, cita 10 milhões de mortes por ano em 2050. Mas este número, que procede de um relatório encomendado há alguns anos pelo governo britânico, nada mais é do que uma apreciação feita por duas consultorias e não o resultado de um trabalho de pesquisadores.

As consequências econômicas também são difíceis de medir, mas provavelmente elevadas: custos de saúde pública e, com o uso de antibióticos nos animais, efeitos nocivos sobre a agricultura e a alimentação.

- O que fazer? -

Os antibióticos devem continuar sendo utilizados de maneira seletiva e não excessiva, embora os médicos às vezes se sintam desprotegidos. 

"O medo das complicações e da pressão que os médicos sentem por parte de alguns pacientes os levam a prescrever antibióticos aos pacientes idosos", afirmou o organismo francês de saúde pública a partir de uma pesquisa feita entre os médicos. 

É necessário encontrar soluções prévias, como por exemplo tentar identificar o mais rápido possível o surgimento de bactérias mais resistentes para evitar sua propagação. 

Por fim, a pesquisa se orienta para o desenvolvimento de tratamentos alternativos aos antibióticos, a base de vírus "bacteriófagos" que atacam as bactérias e as neutralizam.

jdy/pr/may/or/mab/me/fp


A outra 'pandemia' que ameaça a humanidade (a uma velocidade alarmante)

 Notícias ao Minuto

 O número de mortes por infecções causadas por bactérias resistentes irá aumentar em 10 vezes até 2050, adverte um estudo publicado na revista Lancet, sublinhando que as superbactérias já matam mais do que Aids, malária e câncer do pulmão

 © Shuttterstock 

As superbactérias já matam mais do que aids, malária e câncer do pulmão.

De acordo com a pesquisa, todos os anos morrem 1,2 milhões de pessoas devido a superbactérias. E os cientistas estimam que, em menos de 30 anos, as venham a provocar a morte de 10 milhões de pessoas por ano, três vezes mais do que a estimativa de óbitos por Covid para 2020.

A investigação é baseada em dados de 204 países. Até à data, é a mais abrangente sobre o tema. Os cientistas analisaram 23 agentes patogênicos diferentes e quase 90 combinações de infecções e medicamentos utilizados para tratá-las, sem sucesso.

Segundo o estudo, as superbactérias foram a terceira causa de morte a nível mundial em 2019, ficando apenas atrás das doenças cardíacas e do AVC. As infecções respiratórias, tais como a pneumonia, causadas por estas bactérias são as maiores 'assassinas': 400 mil mortes por ano. 

As crianças são as mais afetadas. Os dados mostram que 20% tinham menos de cinco anos. Ou seja, vão ao encontro dos números da Unicef, que estima que até 40% de todas as mortes neste grupo etário são provocadas por superbactérias.

De todos os micróbios testados, seis deles - E. coli, S. aureus, K. pneumoniae, S. pneumoniae, A. baumannii, e P. aeruginosa - são responsáveis pela maioria das mortes (920 mil).

A África Subsaariana e o Sudeste Asiático são as duas regiões mais abaladas, com mais de 20 mortes por cada 100 mil habitantes. Nos países desenvolvidos, esta infecções matam, em média, 13 pessoas por 100 mil habitantes. No entanto, a mortalidade causada por estes micróbios poderia ser muito inferior se houvesse um acesso mais facilitado à medicação. ressaltam os pesquisadores. 


Superbactérias matam mais que HIV e malária no mundo, indica novo levantamento

 Rafael Garcia

O Globo

Em 2019 morreram cerca de 1,27 milhão de pessoas devido a micróbios resistentes a antibióticos; cenário preocupa médicos e afeta países ricos e pobres de forma desigual

 E. Foto: NIH 

Coli, uma das bactérias resistentes aos remédios 

SÃO PAULO —Cerca de 1,27 milhão de pessoas morrem por ano vítimas de micróbios resistentes a antibióticos, indica a estimativa mais precisa feita até agora. O número, relativo a 2019, aponta que as chamadas superbactérias estão matando mais do que o HIV ou a malária. 

O cálculo que levou a esse resultado foi divulgado nesta semana por um consórcio interno de pesquisadores coordenados pelo IHME (Instituto de Métrica e Avaliação em Saúde), ligado ao governo dos EUA. O mesmo levantamento indica ainda que o problema dos micróbios resistentes a drogas teve papel indireto em outras 4,9 milhões de mortes.

O fenômeno da resistência a antimicrobianos preocupa há décadas, e é um processo biológico de evolução. À medida que bactérias são mais expostas a drogas que as matam, aquelas portadoras de mutações genéticas que favorecem resistência aos medicamentos proliferam mais, e sua disseminação dificulta o tratamento.

Historicamente existem dificuldades de se fazer estimativas globais sobre o problema. Como registros de óbitos tipicamente não incluem informações sobre o problema, o trabalho de epidemiologistas requer pesquisas feitas especificamente para estimar a prevalência das superbactérias. Em países com menos recursos, porém, existe um grande vazio de dados sobre o problema, o que torna difícil o monitoramento global.

Para contornar a falta de estudos, um consórcio de 140 cientistas compilou virtualmente tudo o que se produziu de registros em 2019. Onde faltavam dados, os pesquisadores usaram técnicas estatísticas e projeções para fazer estimativas.

“Este estudo apresenta a estimativa mais abrangente do impacto da resistência antimicrobiana feita até hoje”, escreveram em artigo na revista médica The Lancet os cientistas, liderados por Christopher Murray, do IHME.

“Nós estimamos mortes e o impacto na expectativa de vida causados ou influenciados pela resistência antimicrobiana de 23 patógenos (bactérias) contra 88 combinações de drogas em 204 países e territórios”, detalham os cientistas. “Obtivemos dados de estudos de revisão, sistemas hospitalares, programas de vigilância e outras fontes”. 

Cenário desigual

Para efeito de comparação, os pesquisadores separaram os países pesquisados em sete grupos diferentes. Um deles reúne só as nações consideradas de alta renda (incluindo EUA, Europa Ocidental, Austrália e Japão). Os outros países foram agrupados por região, em seis outros conjuntos (veja o mapa acima).

A estimativa deixou claro que as áreas mais pobres do mundo estão entre as mais atingidas, sobretudo a África Subsaariana, com 3 mortes anuais por 100 mil habitantes causadas diretamente pelo problema. Países ricos, porém, também têm uma fatia representativa do impacto.

O Brasil tem situação diversa, dependendo do tipo de bactéria estudada. Para tuberculose, por exemplo, menos de 5% das cepas do país são resistentes ao tratamento de segunda linha. Mas para Acinetobacter, bactéria típica de infecção hospitalar, 70% das amostras são resistentes. (O Brasil colaborou com o estudo com cientistas da USP e da Santa Casa de São Paulo).

“O problema do uso excessivo e inadequado de antibiótico coexiste com o do acesso insuficiente, às vezes na mesma área”, afirma Ramanan Laxminarayan, pesquisador do Centro para Dinâmica, Economia e Política de Doenças dos EUA, em artigo comentário. Ele explica que países muito pobres sofrem mais porque lhes faltam antibióticos de segunda linha, usados quando o tratamento de primeira linha falha. 

“Parte do impacto na África Subsaariana é provavelmente em razão do acesso inadequado a antibióticos e a altos níveis de infecções, mesmo aquelas com baixo nível de resistência”, diz. “Já no Sul da Ásia e na América Latina, o impacto é pela alta resistência, mesmo quando o acesso às drogas é bom”.

Entre as bactérias mais problemáticas, várias são típicas de infecção hospitalar. As três que mais mataram por resistirem a drogas foram a Escherichia coli, gastrointestinal, a Staphylococcus aureus, de infecções respiratórias e cutâneas, e a Klebsiella pneumoniae, que ataca os pulmões.

Parte da solução para o problema, dizem os cientistas, é o desenvolvimento de antibióticos, mas o essencial são protocolos de tratamento que evitem uso abusivo de antibióticos (inclusive na pecuária) e impeçam a proliferação de superbactérias em ambiente hospitalar.

“Identificar estratégias para reduzir o impacto da resistência antimicrobiana deve ser uma prioridade”, escrevem Murray e colegas. “Nossa análise mostra claramente que essas bactérias são um dos maiores problemas globais de saúde pública”.


Brasil tem maior incidência mundial em doença de pele que impede exposição solar

 Ingrid Oliveira

CNN Brasil

Xeroderma Pigmentoso é uma condição rara que atinge um a cada milhão de habitantes no Brasil; pacientes sofrem queimaduras graves quando expostos ao Sol

  Unsplash

Pessoas com xeroderma pigmentoso não podem ser expostas ao sol

Pensar em viver no Brasil, muitas vezes, é sinônimo de verão escaldante, calor, praias maravilhosas e muito sol.

O sol, no entanto, pode ser o grande vilão no dia a dia de portadores de xeroderma pigmentoso, (XP).

A doença é genética de herança recessiva, cujo defeito se dá na reparação do DNA, como explicou à CNN Mauro Yoshiaki Enokihara, presidente da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD).

Isso quer dizer que pessoas com xeroderma pigmentoso não conseguem absorver de forma ordenada a radiação ultravioleta (UV), e quando são expostas à luz solar, os raios UV causam alterações de sensibilidade na pele, queimaduras, lesões e consequentemente um aumento do risco de câncer de pele — chegando a mil vezes em relação à população geral.

Em pessoas sem a doença, os genes são responsáveis por incentivar a produção de proteínas reparadoras do DNA, causadas pelos raios UV ou Sol ou até de lâmpadas comum das casas.

Já nos portadores de XP, há deficiência nessas proteínas que não são produzidas e corrigindo as lesões no DNA, como explicou à CNN a bióloga Ligia Pereira Castro, pesquisadora e especialista em xeroderma pigmentoso.

“O XP ocorre quando dois alelos mutados em um mesmo gene, um da mãe e um do pai, são transmitidos juntos para o filho. No filho, essas duas cópias de gente mutado causam um problema para proteínas que têm função de reparar nosso DNA. As manifestações da síndrome ocorrem quando a pessoa com XP é exposta aos raios UV sem proteção”, disse.

Além das partes expostas do corpo, o olho é uma região muito afetada, ficando hipersensível quando exposta e muito mais propensa ao aparecimento de tumores que causam cegueira e até a remoção do órgão.

A patologia não é contagiosa e é rara. Até 2020, a estimativa era de aproximadamente 200 pacientes XP no Brasil, o que representaria um caso por milhão de habitantes.

Contudo, essa frequência é ainda maior na região ensolarada e tropical de Araras, em Faina, (GO), que tem incidência de um a cada 410 habitantes.

Uma dessas pessoas é Alisson, jovem de 19 anos que foi diagnosticado com xeroderma pigmentoso ainda muito novo.

“Ele era bebê, ficava exposto, brincava um pouco no sol e já apareciam bolhas, queimaduras enormes. Foi quando eu desconfiei que havia algo errado”, disse Gleice Machado, que é mãe de Alisson e hoje, presidente da Associação Brasileira de Xeroderma Pigmentoso (AbraXP).

Apesar de altas temperaturas causarem lesões mais graves, Yoshiaki Enokihara explica que o que influencia de fato é o tempo de exposição.

“O problema não é a temperatura, mas sim a insolação, pois o defeito está na pele não conseguir absorver a radiação UV”, comenta o presidente da SBD.

Desde que recebeu o diagnóstico do filho, Gleice passou a dedicar-se a ajudar pessoas com XP no município de Araras, e depois em todo Brasil.

A AbraXP atua junto à União, estados e municípios, Ministério da Saúde, previdência social e outros órgãos públicos ou privados, visando assegurar a todos o tratamento e o fornecimento de medicamentos com qualidade e segurança, bem como, os direitos e garantias previdenciários.

Uma questão além da genética

Em um estudo de 2017, um grupo de pesquisadores identificou quais eram as mutações nos genes que atingiram o povoado de Araras.

Em 2020, cientistas brasileiros descobriram que uma dessas mutações chegou ao país por conta da colonização europeia, há cerca de 200 anos.

“O legado genético ibérico em uma comunidade isolada no Brasil central, onde uma mutação no gene POLH é responsável por vários pacientes afetados pela síndrome XP. […] Portanto, os dados indicam que há aproximadamente 200 anos, uma rara mutação genética no POLH atravessou o Oceano Atlântico e chegou à costa brasileira. Este é um exemplo interessante do impacto das migrações humanas e eventos demográficos (como efeitos fundadores e endogamia) ocorridos durante a colonização histórica do Brasil na incidência de doenças genéticas”, escreveram.

Ela explica que existem níveis diferente de XP. “Existem oito tipos de XP, que vão de XP-A até o grupo XP-G, e a variante XP-V. No Brasil, a maioria das pessoas já diagnosticadas clínica e geneticamente fazem parte do grupo XP-C e XP-V.”

A doença também pode ser dividida em grau, já que os tipos de XP se manifestam de forma diferente, segundo a cientista.

“É comum entre as pessoas que são XP-C, logo nos primeiros anos de vida, relatarem muita sensibilidade dos olhos ao sol. Não conseguem nem abrir o olho quanto estão em muita claridade. Diferente das pessoas XP-V, por exemplo, que não desenvolvem fotofobia extrema”, explica Ligia.

As descobertas da equipe, no entanto, não se limitaram a saber a origem das mutações. Os pesquisadores descobriram que a alta taxa de incidência em Araras acontece porque há casamento entre pessoas da mesma família.

“A alta incidência da doença no povoado se dá por conta dos casamentos consanguíneos e do isolamento geográfico da localidade. Temos um caso em que 50% do cromossomo de uma criança é igual ao de seu tio-avô, ambos com a doença. Isso ocorre porque não houve recombinação. Ou seja, são três gerações de relações entre primos”, escreveram

Restrições ao sol

A exposição à luz solar por muito tempo já causa incômodo e queimaduras regulares em indivíduos que não tem a mutação genética, nos portadores de xeroderma pigmentoso isso pode ser ainda pior.

“Eu sinto como se estivesse no inferno, ou quase isso”, disse João Vitor Bernardis (15), portador de xeroderma pigmentoso.

Por se tratar de uma doença rara incurável e tendo como maior inimigo o sol, vivendo num país tropical, pessoas com XP devem ter o dobro de cuidados.

“Uma vez eu fui num passeio da escola e minha pele caiu. Foi a pior queimadura que tive”, disse João.

Yoshiaki Enokihara diz que existem variantes de XP, formas mais leves e mais agressivas. “Nestes indivíduos, se as lesões atingirem as camadas mais profundas da pele, tipo hipoderme – tecido gorduroso — há queimaduras de 3º grau que podem deixar cicatrizes permanentes”, explica.

Em situações mais graves, os portadores de xeroderma pigmentoso são submetidos a cirurgias de reconstrução da pele, imunoterapias e uma série de tratamentos que amenizam, mas não curam a doença.

 / Acervo pessoal / João Vitor


O presidente da SBD também destaca que nessas formas mais agressivas, os portadores de XP apresentam expectativa de vida menor, e formas mais brandas, as pessoas podem ter expectativa de vida semelhante à população geral.

Por essa razão, praias, atividades ao ar livre como ida a parques, caminhadas e tudo que envolva o verão, devem ser evitadas por pacientes com XP.

“O principal é a fotoproteção, evitar se expor à luz solar. Pode ser com fotoprotetores físicos: chapéu, boné, guarda-sol, óculos escuros, roupas cobrindo a pele, além dos filtros solares”, recomenda o presidente da SBD.

Todos esses cuidados deixam João com preguiça de sair de dia. “Eu já nem gosto muito de sair. Mas quando preciso, uso camisa térmica, protetor solar, tomo todos os cuidados possíveis. A maioria das atividades eu prefiro fazer quando está anoitecendo porque sei que não vou me queimar.”

Uma vez, ele conta que estava muito sol e que esqueceu de usar protetor solar nas pernas. “Nem fiquei exposto ao sol, foi só o mormaço que causou essas queimaduras”, disse.

A bióloga explica que evitar lesões envolve toda e qualquer exposição ao sol, mas não o isolamento.

“Quero enfatizar a fotoproteção não é isolamento ou passar a viver a noite. Uma vez, uma criança me disse não gostar de ser chamada de ‘criança da Lua’ pois ela não era vampiro para viver somente à noite. Foto proteção adequada é muito protetor solar, roupas longas com proteção UV, chapéu, viseiras, óculos escuros, filtros adequados para UV nas janelas de casa e nas escolas que essas pessoas frequentam”, aponta Ligia.

E apesar de todos cuidados redobrados, João comenta que prefere passar longe do sol.

“Queria trabalhar como sargento do exército, mas infelizmente não posso porque grande parte das atividades são expostas à luz solar”, disse.

Políticas públicas para doenças raras

O Ministério da Saúde publicou uma Portaria 199, de 30 de janeiro de 2014, e por meio deste instrumento normativo instituiu a Política Nacional de Atenção Integral às Pessoas com Doenças Raras.

A norma ainda definiu as Diretrizes para Atenção Integral às Pessoas com Doenças Raras no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS) e institui incentivos financeiros de custeio para os serviços especializados destinados ao tratamento de pessoas com essas condições.

Confira alguns direitos que os pacientes portadores de doenças raras possuem:

Tratamento médico integral gratuito;

Saque do FGTS, PIS/PASEP;

Isenção do Imposto de Renda (para determinadas doenças);

Isenção do IPVA, ICMS, IPI e IOF na compra de um veículo automotor adaptado caso a doença impeça o paciente de dirigir um veículo comum;

Quitação da casa própria;

Acesso a Previdência Privada;

Auxílio-doença;

Aposentadoria por invalidez;

TFD – tratamento fora de domicílio, quando necessário.

HOME CARE – assistência domiciliar;

Gleice conta que, os pacientes de XP procuram a AbraXP buscando ajuda para diagnósticos e tratamento adequado — que nem sempre ocorre. “Mesmo já tendo implantado algumas políticas de saúde para os portadores de doenças raras, ainda estamos muito distantes do que seria necessário”, aponta.

Para ela, há muitas realidades e experiência de SUS. “Esse sistema tem uma dinâmica linda, mas nas entranhas vem um sistema frio, saturado, porém, no final do dia, é ele que nos socorre, e é ele que nós defendemos e cobramos as melhorias tão sonhadas e tão necessárias para cada portador de XP”, disse.

Yoshiaki Enokihara, destaca que o médico dermatologista está habilitado para diagnosticar e tratar os casos de Xeroderma pigmentoso. “Sou docente em uma Universidade Federal cujo pacientes são todos do SUS, e temos feito diagnóstico e tratado pessoas com XP.”

Gleice diz qual o caminho: “para cada brasileiro que precisa só tem essa única opção que é tratar. Sonhamos e lutamos muito para alcançar esse SUS para todos, de forma acessível, eficiente e suficiente. Esperamos que todos os pacientes tenham seus direitos respeitados e garantidos.”


Calor no verão aumenta os casos de infecção urinária; saiba como se prevenir

 Lucas Rocha

CNN Brasil

Reforço na hidratação e hábito de urinar com regularidade contribuem para reduzir as chances de desenvolvimento do quadro clínico que afeta principalmente as mulheres

  Getty Images/EyeEm

Reforçar a hidratação no verão pode ajudar

 a prevenir quadros de infecção urinária

A infecção urinária, resultado da presença de bactérias na região da bexiga e do trato urinário, pode acometer pessoas de todas as idades, de crianças a idosos. Os principais sintomas são ardência, urgência para urinar e dificuldade para segurar a ida ao banheiro ou a presença de sangue na urina.

De acordo com a Sociedade Brasileira de Urologia (SBU), cerca de 80 a 85% das infecções urinárias são causadas pela bactéria Escherichia coli (E. Coli). Os demais casos são associados a outras bactérias.

O médico José Carlos Truzzi, supervisor de Doenças Infecciosas da Sociedade Brasileira de Urologia (SBU), explica que o calor característico do verão favorece o aumento dos casos de infecção urinária.

“Muitas vezes, as pessoas acabam não se hidratando de forma adequada e, por não tomarem líquido em quantidade suficiente para o calor que vivenciamos, acabam produzindo menos urina do que deveriam”, afirma Truzzi.

Segundo o especialista, o hábito de urinar com regularidade contribui para reduzir as chances do desenvolvimento da doença. Infecção urinária é um termo geral que reúne qualquer tipo de quadro inflamatório que se estende dos rins à uretra, passando pela bexiga.

“Normalmente, essas situações de infecção urinária que ocorrem mais no período do verão são os quadros de infecção que comprometem a bexiga e tem um nome próprio: cistite”, explica o médico.

Como os demais quadros de infecção urinária, a cistite também é causada pela ação de bactérias, que habitam o meio intestinal sem causar danos. No entanto, esses microrganismos podem chegar até o canal pelo qual eliminamos a urina, chamado de uretra, e provocar a infecção localizada ou na bexiga e nos rins.

As cistites são mais comuns em mulheres do que nos homens. Segundo Truzzi, a explicação está na anatomia feminina.

“Nas mulheres, a uretra é muito próxima da vagina, que é muito próxima do ânus. Como são bactérias que vivem no meio intestinal da própria pessoa, elas acabam chegando mais facilmente até a uretra e à bexiga da mulher. Por isso, a mulher tem mais infecção urinária do que o homem”, disse.

Além do calor, as infecções urinárias podem ser causadas pela atividade sexual, pelo uso de espermicidas e de anticoncepcionais. Outros fatores de risco são diabetes, incontinência urinária, menopausa, componentes genéticos e a presença de cistocele, uma condição chamada popularmente de “bexiga baixa”, que consiste no deslocamento anormal do órgão.

Tratamento da infecção urinária

O tratamento da infecção urinária deve ser realizado com o uso de medicamentos antibióticos, a partir da orientação médica. Os medicamentos devem ser indicados de acordo com os sintomas apresentados pelo paciente e pelo perfil de sensibilidade das bactérias aos fármacos.

O urologista José Carlos Truzzi enfatiza que o uso de medicamentos por conta própria não é recomendado, pois pode levar ao desenvolvimento da resistência bacteriana aos antibióticos. O problema, que acontece quando determinada bactéria se modifica em resposta ao uso excessivo e incorreto dos medicamentos é uma das maiores ameaças à saúde global atualmente.

Medidas de prevenção

Como medida de prevenção às infecções urinárias, o médico urologista, Eduardo Leze, recomenda o reforço na hidratação, especialmente no período do verão.

“Trabalhar com uma garrafa d’água ao lado é essencial, já que você não precisa sair do seu ambiente para ingerir volumes maiores. É como se você fosse constantemente lembrado de que precisa beber água”, afirma o médico.

O especialista alerta que a retenção da urina por período prolongado pode aumentar as chances de infecção. “As bactérias paradas na bexiga penetram lentamente na mucosa, levando ao problema. Urinar a cada duas ou três horas é o ideal, mesmo sem vontade, para manter a bexiga vazia”, disse.

Segundo o médico, é importante ter atenção a alterações na urina e na frequência com que se utiliza o banheiro.

“Em caso de odor forte, coloração escura e ardência ao urinar, procure um médico especialista, pois podem ser sinais de baixa ingestão de líquidos ou mesmo uma infecção. Além disso, o líquido escuro sugere diferentes doenças, como alterações na vesícula biliar e pâncreas, por exemplo”, disse..

O urologista José Carlos Truzzi afirma que urinar após as relações sexuais também contribui para reduzir os riscos da infecção. Além disso, a adoção de hábitos alimentares saudáveis, incluindo dietas ricas em fibras, pode trazer benefícios para a flora intestinal, que se refletem na prevenção da doença.

“O bom funcionamento intestinal é fundamental para diminuir a ocorrência dessas infecções urinárias”, conclui.


Por que o nariz 'entope' quando estamos com gripe, resfriado ou covid

 Cristiane Martins

BBC News Brasil 

CRÉDITO,GETTY IMAGES

Por que a lista de possíveis causas de um nariz 

entupido ou congestionado é tão grande?

Fumaça de cigarro, poeira, mudança do tempo, frio, rinite, sinusite, poluição, umidade, ar seco, pólen, forte odor, gravidez, gripe, resfriado, covid-19… Por que a lista de possíveis causas de um nariz entupido ou congestionado é tão grande? É recomendado tentar desobstruí-lo com descongestionantes e lavagens com soro ou fazer isso mais atrapalha que ajuda? E afinal, por que o nariz reage desse jeito?

Primeiro é preciso entender o complexo papel do nariz no sistema respiratório humano. Ele principalmente filtra, umedece e aquece (com o calor de vasos sanguíneos) o ar inspirado para que chegue da melhor forma aos pulmões, de onde o oxigênio será distribuído para o resto do corpo por meio do sangue.

O otorrinolaringologista Renato Roithmann, diretor-presidente da Associação Brasileira de Otorrinolaringologia e Cirurgia Cérvico-Facial, explica em entrevista à BBC News Brasil que o nariz é responsável por equilibrar o ar que inspiramos para a temperatura corporal. "É o nosso termostato (dispositivo que regula a temperatura). O nariz aquece o ar e produz muco para nos defender." E não é pouco: a mucosa nasal costuma produzir quase 1,5 litro por dia de secreção para manter as vias aéreas úmidas e ajudar a barrar e descartar partículas ou micro-organismos filtrados também por pêlos nasais.

"Quando olhamos a mucosa (a pele que reveste o nariz) no microscópio, parece um tapete, porque é cheia de pelinhos, que são os cílios. Eles ficam batendo para transportar essa secreção. Parecem algas no fundo do mar quando os vemos varrendo em direção à garganta", afirma a otorrinolaringologista Renata Lopes Mori, da clínica Otorrino Experts.

Mas nem sempre o nariz passa ileso ao desempenhar essas funções, e é aí que ele pode acabar entupido ou congestionado com tanto muco que às vezes ele escorre (coriza). Mori explica as diferenças sutis entre essas duas reações, que podem acontecer ao mesmo tempo no caso de doenças como gripe, resfriado ou covid-19.

No caso do nariz entupido (ou obstruído), conta Mori, isso ocorre pelo inchaço da mucosa, principalmente em uma estrutura na região inferior do nariz chamada concha nasal. "Ela é um epitélio que aumenta e diminui. Mas quando ele inflama, pode aumentar muito e acabar entupindo o nariz."

A congestão, explica ela, se dá quando o batimento dos cílios diminui e a secreção se acumula e se condensa no nariz. Tomada por esse muco, a mucosa nasal fica inflamada, com vasos sanguíneos inchados.

Em geral, esse excesso de muco é produzido pelo corpo como uma reação imunológica posterior à invasão bem-sucedida daqueles micro-organismos que conseguiram ultrapassar a barreira nasal e causar doenças nos pulmões, por exemplo. Um dos papéis dessa secreção nesse caso é combater novos invasores. Estima-se que pelo menos metade das pessoas resfriadas tenham o nariz escorrendo como um dos sintomas. Por outro lado, o excesso de muco correndo na direção oposta, ou seja, a garganta, pode causar inflamações e tosse.

Além disso, estima-se que 2 em cada 100 infecções virais nessa região resultem numa infecção bacteriana porque o muco e outros fluidos acumulados criam um lugar propício para a proliferação de bactérias.

E aí surgem as dúvidas: é recomendado usar remédios ou fazer lavagens com soro fisiológico para lidar com nariz obstruído/congestionado, ou é melhor deixar que a situação "volte ao normal" no nariz naturalmente depois de o sistema imunológico derrotar os invasores em outras partes do corpo?

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Estima-se que pelo menos metade das pessoas resfriadas 

tenham o nariz escorrendo como um dos sintomas

Descongestionantes nasais: benefícios e riscos

Como mostrado acima, a congestão nasal pode ocorrer em resfriados ou alergias, por exemplo, em que a secreção sai sem que se perceba. Mas há momentos em que o corpo não consegue eliminar todo esse muco nasal e muitas pessoas recorrem aos descongestionantes vendidos em farmácias.

Há dois tipos principais deles: os que são administrados diretamente no nariz e os que são administrados pela boca (em forma de xarope ou comprimido). Em geral, esses medicamentos têm um papel de contraírem os vasos sanguíneos do nariz (vasoconstrição), melhorando o incômodo da congestão e ajudando a respirar melhor.

Mas essa melhora não é natural, já que foi obtida pelo produto farmacêutico, então o alívio (benefício para algumas pessoas) é temporário. Um tempo depois, os vasos sanguíneos do nariz voltam a dilatar e a congestão volta. A partir daí, há um vaivém de contrair e descontrair os vasos do nariz que para algumas pessoas é sinônimo de alívio.

Apesar dos benefícios envolvidos, há também diversos riscos, principalmente para crianças, grávidas, lactantes e idosos.

"Os orais só são liberados em crianças a partir dos 4 anos de idade. Alguns seguem o critério de que só pode usar a partir de 6 anos, mas dependendo das formulações só podem ser usados a partir de 12 anos. Além disso, é proibido o uso de descongestionantes orais em grávidas e lactantes. Os de uso tópico, em forma de gota, eventualmente se pode usar. O problema é que eles funcionam tão bem que a pessoa tem a tendência de começar a usar excessivamente porque na gestação normalmente o nariz fica mais congestionado, e aí pode entrar a questão da dependência", afirma Roithmann, da Associação Brasileira de Otorrinolaringologia e Cirurgia Cérvico-Facial.

Segundo o otorrinolaringologista, gestantes e lactantes devem conversar com seus médicos sobre o uso desse tipo de medicamento, mas, "de maneira geral, não se usa descongestionantes nem tópicos (aplicado no local), nem sistêmicos (medicamentos orais) em gestantes e lactantes."

Há duas saídas possíveis para grávidas e lactantes, sugere Roithmann. Uma é a lavagem nasal (leia mais abaixo) e a outra é o uso de medicamentos anti-inflamatórios de uso tópico, que também podem ser usados de forma segura na rinite da gestação e durante o período de lactação. Mas é importante ressaltar que eles não são descongestionantes. 

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É recomendado tentar desobstruí-lo com descongestionantes 

e lavagens com soro ou fazer isso mais atrapalha que ajuda?

E por que há toda essa preocupação em torno do uso de descongestionantes nasais?

Roithmann explica que esse tipo de medicamento é absorvido pela circulação sanguínea e pode gerar alterações na frequência cardíaca e de pressão, sem falar de alterações no sistema nervoso central.

Por isso, devem ficar atentos pacientes com condições cardíacas, como isquemia cardíaca, hipertensão, alterações hormonais como hipertireoidismo, diabetes, glaucoma e uso de outros medicamentos, como alguns tipos de antidepressivos.

"Se você pinga essa medicação, ele descongestiona essas estruturas internas do nariz e você em 2 minutos está respirando melhor. Mas qual é o problema disso? Passado um tempo tem um fenômeno chamado efeito rebote", explica o especialista. "Se usar mais do que três a cinco dias, continuamente, o organismo começa a precisar do congestionante para funcionar. E começa a pedir que a pessoa use cada vez mais. Isso gera uma situação que tem até um nome e é uma doença, que se chama 'rinite da gota', 'rinite medicamentosa', e que é difícil de tratar, exigindo em alguns casos intervenção cirúrgica do nariz para resolver."

Há um projeto de lei em tramitação na Câmara dos Deputados em que torna obrigatória a apresentação e a retenção de uma receita médica para a compra de medicamentos para desobstrução nasal que contenham corticoides e vasoconstritores.

O autor da proposta, o deputado federal Dr. Zacharias Calil (DEM-GO), cita no texto dados da Associação Brasileira de Otorrinolaringologia e Cirurgia Cérvico-Facial, que aponta que "os descongestionantes nasais são os medicamentos mais procurados na automedicação, em torno de 7% das vendas" e que "de 25% a 50% dos usuários dessas substâncias poderá desenvolver rinite medicamentosa".

O projeto, que cita outros efeitos colaterais possíveis (como malformações cardíacas fetais no primeiro trimestre de gravidez e redução da espessura da mucosa nasal), aguarda parecer do relator na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara.

"Uma coisa importante para as mães e pais entenderem: a gente tem tanto receio do uso de descongestionante em criança porque a dose que ajuda, ou seja, a dose que descongestiona, é muito próxima da dose que gera efeitos colaterais. Então, é muito comum intoxicação por descongestionante, inclusive visitas à emergência pelos efeitos do excesso de descongestionante", afirma Roithmann.

Segundo ele, "a tendência hoje da maior parte dos tratamentos, tanto de rinite crônica, quanto de sinusite crônica, é através de lavagens nasais".

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Pacientes com condições cardíacas, como isquemia cardíaca, hipertensão, alterações hormonais como hipertireoidismo, diabetes, glaucoma e uso de outros medicamentos, como alguns tipos de antidepressivos, devem ficar atentos ao usar descongestionantes nasais

Lavagem nasal: benefícios e riscos

Esse tipo de tratamento, que basicamente lava as narinas com soro fisiológico, vem sendo considerado por especialistas como um das saídas mais efetivas para o cuidado e tratamento de doenças que afetam o nariz. Além de ajudar a prevenir crises de sinusite ou rinite, por exemplo, ao melhorar em alguns casos a circulação sanguínea e a eficiência da mucosa nasal.

Pacientes com rinite alérgica, congestão nasal e excesso de secreção costumam usar essa técnica com frequência, principalmente porque eventuais efeitos adversos envolvem riscos bem menores: a irritação no nariz e a remoção indevida de defesas nasais.

E quais são os principais benefícios? Mori explica que a lavagem nasal ajuda a eliminar substâncias inflamatórias (reduzindo os sintomas de congestão ou obstrução) e também auxilia na remoção mecânica da secreção acumulada, evitando que o local vire um meio de cultura para bactéria e "evoluindo de uma gripe ou resfriado para uma sinusite aguda bacteriana."

A lavagem nasal pode ser feita em pessoas de todas as idades, mas a quantidade varia a depender da faixa etária. Crianças mais novas podem precisar do auxílio de adultos para realizar o procedimento. Em geral, podem ser usados seringas (sem agulhas) ou dispositivos específicos para isso (vendidos em farmácias ou lojas de artigos médico-hospitalares).

Há dois tipos de lavagem nasal: baixo volume (até 50ml em cada narina) e alto volume (mais do que 100ml por lavagem).

A primeira costuma ser usada em pacientes sem muita secreção e congestão nasal. A segunda, de alto volume, é indicada "nos casos em que a mucosa está inflamada, como nos episódios de gripes, resfriados e principalmente nos casos de sinusites agudas e crônicas", explica Mori. O objetivo da maior quantidade de soro é conseguir remover essa secreção e substâncias inflamatórias.

A lavagem pode ser feita tanto com o soro vendido em garrafas em farmácia quanto com soro feito em casa. Mas a composição aqui não é igual à do soro caseiro usado para combater a desidratação (com água, sal e açúcar). Mori sugere uma receita baseada em sachês americanos vendidos para lavagem nasal: 250ml de água filtrada/fervida, 1 colher de café rasa de sal de cozinha e 1/4 de colher de café de bicarbonato de sódio (que ajuda a diminuir a viscosidade da secreção). Esse líquido, que não deve ser usado para inalação, pode ser armazenado na geladeira por até 24h.

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Recomenda-se que lavagem nasal seja feito com pessoa em pé ou sentada, com uso de seringa (sem agulha), garrafinha vendida em farmácia para esse fim ou dispositivos conhecidos como Lota

E como se faz essa lavagem nasal com soro?

Recomenda-se que isso seja feito com a pessoa em pé ou sentada, com uso de seringa (sem agulha), garrafinha vendida em farmácia para esse fim ou dispositivos conhecidos como Lota.

Segundo Mori, o importante nessa técnica é o volume de soro, e não a força ou a pressão aplicada, que em excesso podem transformar a solução em problema. "Muita força pode fazer com que o soro vá parar no ouvido, que se comunica com o nariz pela tuba auditiva. Com o soro se encaminhando para lá, pode gerar muitos desconfortos, como a sensação de ouvido tampado e pior, pode até causar otite."

A pressão em excesso também pode machucar o septo nasal e provocar sangramento. Por fim, se não houver força ou pressão demais, mas lavagem em excesso, o nariz pode acabar irritado. "A estrutura interna do nariz e sua defesa contra infecções dependem de algumas substâncias presentes nesse muco nasal. Então, a remoção excessiva delas pode ser prejudicial", afirma Roithmann. Segundo ele, a quantidade ideal numa criança, por exemplo, é duas vezes ao dia: quando acorda e antes de dormir.

Roithmann afirma ainda que essa técnica pode ser usada em bebês, que costumam ter congestão nasal e excesso de muco dentro do nariz, "o que não é sinônimo de doença". Nessa faixa etária, são usados tanto a lavagem nasal quanto dispositivos de sucção que retiram um pouco desse muco excessivo, já que bebês ainda não sabem expelir por conta própria essa secreção.

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Deve-se buscar avaliação de médicos especializados caso problema

 respiratório seja frequente, persistente ou esteja afetando a rotina

No caso dos bebês, o especialista recomenda também que, no caso de congestão nasal, deve-se amamentá-los na posição sentada, que ajuda a desinchar as estruturas nasais, explica Roithmann .

A posição também deve ser observada na hora de dormir em adultos e crianças com nariz congestionado. Recomenda-se que o travesseiro fique em posição mais elevada para ajudar a respiração e diminuir o desconforto.

Roithmann ressalta, por fim, que deve-se buscar a avaliação de médicos especializados caso esse problema respiratório seja frequente, persistente ou esteja afetando a rotina.